Educação

SOBRE A INCLUSÃO DAS CRIANÇAS ATÍPICAS NAS ESCOLAS REGULARES: UMA UTOPIA?  

 

 

O que posso falar sobre o filme “Estrelas na Terra”? Brilhante, sensível, comovente, não faltam  adjetivos para tentar expressar a emoção e as reflexões que esse filme suscitou em mim sobre uma questão que nossa sociedade precisa urgentemente discutir.

 

Na semana da conscientização do autismo, falar da inclusão de crianças atípicas nas escolas regulares é um ATO POLÍTICO.

 

 

O filme “Estrelas na Terra” se passa na Índia e conta a história de Ishaan uma criança que sofre de dislexia que cresce numa sociedade que busca de forma obsessiva o sucesso e a excelência. Valores que seu pai cultua diariamente na sua vida, ignorando por completo as dificuldades de seu filho caçula, que fere diariamente seu narcisismo por não corresponder as suas expectativas. Alheio ao que se passa com Ishaan, o pai interpreta sua “recusa” em atender as ordens dos professores na escola como rebeldia e indolência, tratando o filho com a mesma dureza e incompreensão que ele é tratado na escola pelos educadores, que o aconselha a colocar Ishaan em uma escola especial, acreditando que ele é incapaz de aprender como as outras crianças da escola.

 

Embora a Índia seja uma cultura muito distante da nossa, o filme retrata de forma muito fiel às dificuldades que enfrentamos no nosso país no que se refere à inclusão de crianças atípicas em escolas regulares. Suscitando questões que podem ser facilmente transportadas para a realidade brasileira.

 

 

Como incluir uma criança atípica em uma escola regular em uma época em que educadores e pais preocupados em garantir o futuro das crianças tentam a todo custo transformá-las em um modelo ideal, padronizando comportamentos e modos particulares de existência?

 

Como incluí-la em um contexto que em nome desse ideal ignora que cada criança tem o seu tempo e ritmo para se desenvolver e exige que ela seja atenta, focada, disciplinada e produtiva? Buscando assim garantir que ela, no futuro, emplaque a lista dos aprovados do ENEM, que não necessariamente garante o seu futuro, mas com certeza coloca as escolas na lista das melhores instituições da cidade, divulgada anualmente pelos meios de comunicação mais eficazes.

 

Como incluir as crianças que sofrem de transtornos que impõe a elas uma série de dificuldades numa sociedade que estimula constantemente a competição? Que afirma que todo mundo tem que ser um case de sucesso na vida.

 

 

No filme, Ishaan teve a sorte de conhecer um professor que ignorando a filosofia da escola “Disciplinar cavalos selvagens” percebe que ele sofre de dislexia e faz um apelo ao diretor da escola pedindo que os outros professores parem de recriminá-lo por ele não apresentar o mesmo desempenho dos outros alunos, se comprometendo a dar aulas semanais para ele com o intuito de ajudá-lo a superar suas dificuldades.

 

Ignorando mais uma vez as normas da escola, ele não só usa um método de ensino adaptado ás necessidades de Ishaan, que vai aos poucos superando suas dificuldades, como também estimula o garoto a desenvolver um talento inato para as artes, transformando, assim, o olhar dos colegas e dos outros professores que consideravam Ishaan um caso perdido.

 

 

“Estrelas na Terra” é definitivamente um filme que mostra que a inclusão de crianças atípicas em uma escola regular não é uma utopia, mas para que as escolas realmente se tornem inclusivas é necessário que não só os educadores, mas os pais e a sociedade como um todo acolham essas crianças na sua diferença.

 

No filme, Ishaan foi acolhido por um professor que o reconheceu na sua diferença, buscando por isso compreender por que ele não conseguia aprender como as outras crianças da sua idade, o que permitiu que ele fizesse uma adaptação para que Ishaan, que tinha toda condição de aprender o que estava sendo ensinado na escola, pudesse finalmente reconhecer as letras e números que dançavam insistentemente na sua frente.

 

Talvez, esse seja o caminho a ser percorrido nas escolas para que a inclusão não passe de uma utopia, olhar cada criança na sua diferença, permitindo assim que elas construam no seu tempo a sua maneira própria de existir no mundo e de se comunicar.

 

 

Ao finalizar esse post, me arrisco a dizer que numa sociedade como a nossa que vem tratando as crianças nas escolas como uma linha de produção humana, padronizando comportamentos e modos particulares de existência, toda criança, com ou sem diagnóstico, é definitivamente um caso de inclusão. E se formos capazes de entender isso, com certeza, vamos começar a escrever no nosso país um novo capítulo no que se refere á educação e a infância.

Educação

A FAMÍLIA CONTEMPORÂNEA NA PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO.

 

Entrevista com Sérgio Porfírio, especialista em psicanálise e educação, educador com vasta experiência no campo da educação.

 

É com muita alegria que convido a todos para assistir a primeira entrevista do Canal PAIS EM CENA.

 

A parceria entre a família e a escola e a confiança dos pais nos educadores é fundamental para que a criança se sinta segura e motivada para assimilar os conteúdos transmitidos pelos professores. Mas nem sempre essa parceria é possível. Com frequência, escuto os pais se queixar da escola e os educadores da falta de participação da família no processo educacional do aluno.

 

Nessa entrevista, Sérgio fala da família contemporânea na perspectiva da educação, trazendo algumas reflexões importantes sobre a relação família e escola.

 

Imperdível e atual!

 

Fica o convite para assistir e compartilhar a entrevista!

 

ttps://www.youtube.com/watch?v=7IsqPWxnMPc

Educação

REFLEXÕES SOBRE A PATOLOGIZAÇÃO E MEDICALIZAÇÃO DA INFÂNCIA

Esse post que tem como objetivo discutir a patologização e medicalização em grande escala das crianças nasce do meu desejo como psicóloga, psicanalista e mãe de problematizar essa questão convidando pais, educadores e pessoas interessadas na infância e refletir sobre essa questão.

 

Está cada vez mais comum encontrar crianças que portam algum tipo de transtorno, sendo os mais comuns o TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade), o Transtorno Opositor Desafiador, que acomete crianças com dificuldade intensa em conviver socialmente com sua família ou com figuras de autoridade, e o Autismo. Segundo reportagem da Revista Veja de julho de 2017, embora a causa do autismo ainda seja enigmática, estima-se que a cada 68 crianças uma é afetada pelo transtorno, cuja característica principal é a dificuldade de socialização e comunicação.

 

 

De fato, os avanços científicos vêm facilitando o diagnóstico de transtornos mentais como o autismo e o tratamento do mesmo. No entanto, me pergunto se estes números são reais ou se está havendo uma banalização desses diagnósticos.

 

 

Desde o advento do DSM-V (Manual da Psiquiatria), comportamentos típicos da infância considerados normais, como a agitação, a distração e a timidez foram transformados em sintoma de algum transtorno, o que vem acarretando o encaminhamento maciço de crianças para os neurologistas e psiquiatras infantis.

 

Esses encaminhamentos acontecem principalmente por parte dos educadores das escolas que, ao detectar na criança um comportamento que causa um transtorno no ambiente escolar ou que se opõe ao que se espera dela em uma determinada fase do desenvolvimento, orienta os pais a buscar um especialista com o intuito de suprir tal comportamento. O que, com raras exceções, resulta na patologização desse comportamento e medicalização da criança.

 

 

Outro fator que também contribui para a patologização e medicalização das crianças em grande escala é o fato de vivermos em uma sociedade que vem desrespeitando a infância, as particularidades e o tempo de cada criança. Existe hoje por parte dos pais uma preocupação exacerbada com o futuro da criança. Por isso, está cada vez mais comum encontrar crianças com agendas lotadas e com pouco tempo para brincar e desfrutar de uma das fases mais importantes e significativas da vida, a infância.

 

Exigimos delas foco, obediência, disciplina, atenção e, sobretudo, produtividade. Com isso, nos tornamos intolerantes. Diante de um comportamento que não atenda a esses requisitos, buscamos extingui-lo, sem se perguntar sobre a causa deste comportamento.

 

Como psicóloga e psicanalista com experiência na clínica com criança posso afirmar que grande parte dos comportamentos e sintomas apresentados por elas estão relacionados  a algum conflito ou dificuldade vivenciado no âmbito familiar, escolar ou em outros contextos. Uma criança agitada, por exemplo, nem sempre é uma criança hiperativa. Essa agitação pode ser a forma que ela encontrou de comunicar para as pessoas com as quais ela convive que ela está sofrendo, ou de lidar com algo que lhe afeta, ainda que ela não tenha consciência disso.

 

São estes conflitos que muitas vezes não são levados em consideração ou escutados não só pela dificuldade dos pais de lidar com os impasses vivenciados pela criança, uma vez que não é simples deparar-se com a angústia de um filho, mas também porque vivemos hoje em uma sociedade em que os adultos têm pouca tolerância para o sofrimento.

 

Diante da dor, da dúvida, das incertezas e contradições que são inerentes à condição humana, afinal, ninguém passa ileso pela vida, eles tendem a buscar meios de se livrar desses sentimentos, anestesiando a dor. Assim, ao invés de buscar uma explicação para o seu sofrimento, medicam a dor e colocam o problema debaixo do tapete, adiando seu enfrentamento.

 

Por isso, me pergunto se estamos fazendo o mesmo com nossas crianças quando patologizamos comportamentos e sintomas que revelam que algo não vai bem com ela, silenciando seu sofrimento com medicamentos, deixando, assim, de escutá-las.  Afinal, as crianças não são seres destituídos de conflitos e assim como nós, adultos, elas também sofrem e tem o que dizer do seu sofrimento!