Maternidade

PRECISAMOS FALAR SOBRE O ARREPENDIMENTO MATERNO.

Orna Donath é uma socióloga que realizou em Israel uma pesquisa sobre o arrependimento materno. Lendo os depoimentos das mulheres que ela entrevistou, fiquei refletindo sobre o que teria tornado a experiência de ser mãe para essas mulheres tão pesada, levando-as ao arrependimento materno.

O arrependimento materno, assim como outros conflitos e afetos negativos são inerentes à experiência de ser mãe, muitas mulheres em algum momento vão questionar sua escolha pela maternidade e imaginar como seria sua vida sem filhos.

Questionamentos que pela minha prática clínica observo que muitas vezes elas só se arriscam a fazer no consultório de um analista, temendo as represálias que podem sofrer. Afinal, ainda vivemos em uma sociedade que acredita que a maternidade é algo inerente a natureza feminina, assim como o amor materno. Por isso, ela é a maior fonte de satisfação e realização para uma mulher.

Acredito que a falta de liberdade para falar dos conflitos que a maternidade desperta na vida de uma mulher e os tabus em torno dessa experiência pode ser um dos fatores que torna a experiência de ser mãe tão difícil e pesada para algumas mulheres que, ao serem silenciadas por uma sociedade repressora, perdem o direito de elaborar as dificuldades vivenciadas com a maternidade. O que poderia tornar a experiência de ser mãe mais leve e satisfatória.

Maternidade

NOTAS SOBRE O DIÁRIO DA MÃE DE ALICE, UMA MENINA COM PARALISIA CEREBRAL, ESCRITO PELA JORNALISTA MARIANA ROSA

Mariana Rosa é jornalista e mãe de Alice, uma linda menina que nasceu com paralisia infantil. Após o nascimento da filha, ela inicia a escrita de um diário sobre o seu cotidiano com a filha, transformando as palavras na sua maior aliada para elaborar as experiências e os desafios vivenciados com a filha.

 

Com muita generosidade e otimismo, Mariana compartilha reflexões importantes no seu diário sobre o impacto de um diagnóstico na vida de pais que, assim como ela, também vivenciam no seu cotidiano o desafio, a dor, a alegria, a angústia e a beleza de educar uma criança atípica.

 

 

Para Mariana, por mais triste e assustador que um diagnóstico possa parecer, ele é sempre libertador, na medida em que possibilita o princípio de compreensão de uma realidade que convoca os pais ao enfrentamento e aponta caminhos, nem sempre fáceis, mas possíveis. É portanto, um ponto de partida e não de chegada, o início de uma caminhada e não o fim dela.

 

“É também uma interpretação médica da realidade, importante, necessária, mas incompleta, pois carece ser complementada por contribuições diversas das outras ciências, das artes, da espiritualidade e, sobretudo, do sentimento.”

 

 

Por isso, ela fez dos sentimentos e emoções suscitadas no cotidiano com sua filha um importante aliado, abraçando com muita coragem o medo, a angústia e as frustrações provocadas pelas limitações que a paralisia cerebral impusera a sua filha Alice. Tais sentimentos passaram a guiar a sua jornada, transformando os caminhos a serem percorridos em uma caminhada esperançosa que exige daqueles que abraçam com coragem o desafio de educar uma criança atípica, (re) significar as expectativas criadas com a chegada do filho e o próprio sentido da vida.

 

Mariana na sua jornada com Alice não só reinventou a si mesma, mas permitiu que sua filha encontrasse uma maneira própria de se comunicar e existir no mundo, tirando dela o fardo de ter que ser um caso de superação correspondendo ás expectativas criadas em torno dela. Para Mariana, Alice precisa apenas viver, desenvolver toda a sua potencialidade encontrando, assim, o entusiasmo pela vida, como deve ser com todas as crianças.

 

 

E foi a coragem de permitir que Alice inventasse a sua própria existência que a transformou em uma artista, que fez da sua existência a sua obra. E é aí que Mariana nos deixa seu maior legado como mãe de uma criança atípica, a capacidade de na contramão do mundo, que busca padronizar desejos e modos de existência transformando seres humanos em uma linha de padronização, permitir que Alice, uma menina avessa a padronizações, ao nascer fora do tempo do nascimento, da curva de crescimento e da linha neuroevolutiva  inventasse no seu tempo seu próprio sistema de medida.

 

Talvez seja esse o maior desafio dos pais, não apenas de crianças atípicas, permitir que nossos filhos desenhem a sua maneira e no seu tempo, a sua própria existência.

Maternidade

NOTAS SOBRE A CULPA MATERNA

 

Desde que iniciei minhas pesquisas sobre a maternidade, comecei a me perguntar por que a culpa é um sentimento presente no discurso de praticamente todas as mulheres que atendi na minha clínica que buscavam análise com o intuito de trabalhar as suas dificuldades com a maternidade.

 

 

Lendo a pesquisa realizada pela socióloga Orna Donath que entrevistou mulheres que se arrependeram da escolha pela maternidade, comecei a pensar que para além das vivências pessoais e fatores inconscientes que atravessam a experiência de cada mulher com a maternidade, a culpa também pode ser fruto de questões culturais.

 

Apesar das mudanças que ocorreram nas últimas décadas na forma de falar sobre a maternidade e os sentimentos que ela desperta, possibilitando que o mito da mãe ideal seja questionado, na medida em que as mulheres começam a falar publicamente dos seus conflitos e dilemas com a maternidade, esse mito ainda continua vivo e pulsante atravessando nossa experiência com a maternidade.

 

 

No seu livro, Orna Donath comenta que muitas mulheres entrevistadas por ela afirmam ter se arrependido da maternidade por não corresponderem a um ideal social de como uma mãe deve ser, sentindo-se, por isso, inadequada e fracassada enquanto mãe.

 

Em uma das entrevistas relatadas pela autora, a mãe entrevistada afirma que se sente profundamente culpada por não ter encontrado na maternidade, mas no seu trabalho e em outros projetos sociais, sua maior fonte de realização pessoal. Por isso, se arrependeu da escolha pela maternidade.

 

 

Entrevistas como a de P. me levaram a pensar que nós mulheres desse século conquistamos sim uma autonomia e liberdade em relação a vários aspectos da nossa vida. Não restringimos mais nossa vida ao lar, aos filhos e ao casamento, almejamos uma carreira profissional, votamos, participamos da vida pública, mas no que diz respeito à maternidade, acredito que ainda há muita opressão.

 

 

Embora a sociedade, pautada em uma ideologia capitalista, veicule a ideia de que somos livres para escolher se queremos ou não ser mãe e construir nossa identidade como mãe a nossa maneira, ela ainda espera e cobra de nós determinadas condutas e sentimentos.

 

As mães ainda representam seres sagrados, que amam seus filhos incondicionalmente, responsáveis pelo sucesso ou fracasso do filho, cujo futuro depende da sua conduta e da forma como ela realizou seu papel como mãe.  O que mostra que apesar de todas as mudanças, a cultura ainda não conseguiu reconhecer que a maternidade é apenas uma experiência humana contraditória e conflituosa como qualquer outra, e nem considerar que a mulher é um ser separado do filho, com existência, desejos e necessidades próprias.

 

 

Por isso, mesmo desfrutando da liberdade de fazer outras escolhas para além da maternidade, quando se tornam mãe, a sociedade ainda espera que as mulheres abdiquem de seus sonhos e projetos pessoais, repensem suas escolhas em prol do filho e encarne a mãe ideal, 100% dedicada e atenta as suas necessidades, mesmo quando ela concilia a maternidade com uma carga horária pesada de trabalho e independente das condições em que ela cria seu filho.

 

Por causa disso, é que acredito que parte da culpa que as mulheres sentem quando se tornam mães, sentimento que atravessa cotidianamente a sua relação com seu rebento, é decorrente da presença viva do mito social da mãe ideal, que em minha opinião se tornou a maior arma de opressão das mulheres nas últimas décadas.

 

Maternidade

MATERNIDADE REAL

 

A maternidade é um tema instigante que venho pesquisando com o intuito de compreender a complexidade e profundidade dessa experiência. Sou mãe e psicóloga clínica, apaixonada pela minha profissão e pelo universo feminino, acolho em meu consultório mulheres em busca de equilíbrio e apoio para lidar com os desafios e dilemas que a maternidade trouxe para a sua vida.

 

 

Escutando essas mulheres observei que as dificuldades vivenciadas por elas no cotidiano só são compartilhados com um terapeuta. É raro ouvir uma mulher admitir em público que a maternidade não é só flores e que o nascimento do filho provocou mudanças irreversíveis na sua vida. Mesmo sofrendo, elas se recusam a compartilhar seus medos e inseguranças, sustentando com essa atitude o mito do instinto materno disseminado em nossa sociedade, nos últimos séculos, que corresponde á crença de que toda mulher nasceu para ser mãe, vai naturalmente desejar ter filhos, amá-los incondicionalmente e sentir-se plena e realizada com a maternidade.

 

Embora algumas mudanças significativas tenham ocorrido na sociedade nas últimas décadas, modificando de forma radical o lugar e o papel social da mulher, ela continua sendo a principal responsável pelo filho.

 

 

Para Badinter, autora francesa que realizou uma pesquisa sobre o instinto materno, a sociedade ainda espera que a mulher ame seu filho incondicionalmente e encontre na maternidade a sua maior fonte de realização e satisfação. O que nem sempre acontece.

 

O processo de tornar-se mãe para um filho não é decorrente de um dom natural, mas de alguns aspectos que vão influenciar de forma significativa o modo como a mulher se apropria do seu papel e vivência a maternidade. Dentre eles, destaco o desejo, a própria experiência da mulher como filha e os discursos sociais que definem em uma determinada cultura e época o que é ser mãe.

 

Por isso, ao contrário do que a sociedade espera, o amor entre pais e filhos não está garantido a priori e nem toda mulher consegue se apropriar do seu papel com tranquilidade, vivenciando a maternidade de forma gratificante. Para algumas mulheres, a maternidade poder ser uma experiência difícil e contraditória.

 

 

O encontro com um bebê real de carne e osso que demanda atenção exclusiva pode despertar na mulher conflitos e sentimentos contraditórios que surgem porque a maternidade como qualquer relação humana é ambígua. Sentimentos que ela raramente consegue admitir e que desperta nela um profundo sentimento de culpa comprometendo a construção de um vínculo satisfatório com seu bebê que necessita dessa relação para se desenvolver.

 

 

Reconhecer os afetos e emoções vivenciados com a maternidade e se dispor a falar das dificuldades que a chegada de um filho trouxe para a sua vida pode ser libertador para algumas mulheres, que ao falar da sua experiência como mãe conseguem encontrar uma forma de dar tratamento a esses impasses vivenciando, assim, a maternidade de forma mais prazerosa e satisfatória.

Texto originalmente publicado na Revista Canguru (Edição Maio de 2017).