Parentalidade

REFLEXÕES SOBRE O IMPACTO DO DIAGNÓSTICO NA VIDA DOS PAIS

 

Diagnóstico não é destino, nem sentença, é apenas uma interpretação médica sobre a vida, mas a vida também é feita de outros pontos de vista.

 

Escolhi iniciar esse post da série sobre diagnósticos na infância com essa frase da blogueira Mariana Rosa, mãe da Alice, uma menina com paralisia cerebral. Ela me fez refletir sobre o impacto que um diagnóstico que revela que uma criança sofre de algum transtorno pode ter na vida dos pais. Essa reflexão também parte do trabalho que desenvolvo no meu consultório como psicóloga clínica com pais de crianças com necessidades especiais. Por isso, dedico esse post a esses pais que confiando em meu trabalho compartilharam comigo suas dores, expectativas e medos em relação ao futuro do seu filho.

 

 

Quando os pais recebem o diagnóstico do filho, inicialmente, eles sentem um misto de alívio e medo. Alívio por encontrarem uma explicação para os atrasos que ele vem apresentando no seu desenvolvimento e para os comportamentos que ele apresenta que fogem do que é esperado de uma criança. E medo por estarem diante de uma realidade que eles desconhecem e que os impulsiona a buscar informações e o apoio dos especialistas em busca de orientações para aprender a lidar com essa realidade e ajudar o filho a se desenvolver.

 

Essas informações e orientações podem ser de grande valia para os pais que se sentem muito perdidos quando recebem o diagnóstico do filho. Afinal, ninguém está preparado para educar uma criança com necessidades especiais. No entanto, alguns pais podem apropriar-se dessas informações e orientações dadas pelos especialistas como se fossem verdades incontestáveis. Quando isso acontece, eles correm o risco de abdicar de uma das ferramentas mais preciosas na educação de um filho, sua intuição.

 

 

De forma resumida e simplificada, intuição é uma forma de conhecimento que está dentro de todos nós, embora nem todas as pessoas saibam utilizá-la. De acordo com a psicóloga Virginia Marchini, que é fundadora do Centro de Desenvolvimento do Potencial Intuitivo de São Paulo, cada um de nós tem dentro de si a sabedoria e o conhecimento que necessita para lidar com determinadas situações e conflitos que vão surgindo ao longo da vida.

 

 

No que se refere à educação dos filhos, esse conhecimento intuitivo construído na convivência diária e no estabelecimento de um laço afetivo com a criança é o que permite aos pais conhecer intimamente seu filho, compreender suas reações e atitudes, assim como localizar a melhor forma de lidar com ele em determinadas situações. Por isso, a intuição é uma ferramenta preciosa na educação de um filho, principalmente quando se trata de uma criança com necessidades especiais.

 

Pois nessa situação, os pais precisam ajudá-la a encontrar, a partir das suas potencialidades, a melhor forma de enfrentar as suas dificuldades e de se adaptar a realidade a sua volta. Afinal, não existe uma receita, cada criança é única e terá que descobrir o seu próprio caminho para lidar com as questões que o diagnóstico traz para a sua vida.

 

 

Mas para que isso aconteça, é necessário que os pais estejam atento aos seus sinais, reações e formas peculiares de estar e lidar com o mundo. O que dificilmente vai acontecer se eles tomarem as informações e orientações dadas pelos especialistas como verdades incontestáveis, perdendo, com isso, a confiança na sua própria capacidade de perceber e compreender as reações do seu filho, assim como de buscar soluções para os desafios e dificuldades que surgem no cotidiano de quem se ocupa da educação de uma criança com necessidades especiais. Por isso, fica a dica!

 

Ela pode ser uma grande aliada na educação do seu filho.

 

 

Parentalidade

COMO A ADOLESCÊNCIA DO SEU FILHO TOCA A SUA VIDA?

A maior parte dos livros, textos, matérias de jornal e palestras que abordam a adolescência fazem referência às transformações que os jovens sofrem nessa fase da vida e como eles são afetados por elas, ignorando o impacto da adolescência na vida dos pais.

 

A adolescência é uma fase da vida em que o jovem se despede do seu corpo e identidade infantil, dos pais idealizados da infância e do lugar que ele ocupava no seu desejo. É também um momento em que ele sente a necessidade de se afastar da sua família e buscar novos referenciais no mundo. Por tudo isso, a adolescência é considerada uma fase de luto, tanto do jovem que se despede da sua infância, quanto dos pais que vivenciam o luto da criança que seu filho foi um dia e do lugar que eles ocupavam na sua vida.

 

 

É também um momento em que os pais são alvo de duras críticas por parte do adolescente. O que pode levá-los a mudar o seu comportamento se afastando do filho ou  reforçando a sua autoridade, dificultando, assim, o seu amadurecimento.

 

 

Essas mudanças que afetam a relação entre pais e filhos também podem estar relacionadas á forma como os pais vivenciaram a sua própria adolescência. Pais que passaram por uma adolescência difícil, podem temer a adolescência do filho, acreditando que assim como eles, ele também vai se colocar em situações difíceis que pode colocá-lo em risco. Quando isso acontece, os pais acabam transformando a adolescência do filho em um motivo de apreensão, preocupação e medo.

 

 

Outro fator que também contribui para isso se refere ao fato da adolescência do filho levar alguns pais a fazer um balanço da sua própria vida. Diante da sua juventude, os pais começam a rever as suas próprias escolhas, avaliando suas conquistas e fracassos, o que pode despertar neles afetos contraditórios. Se por um lado eles se alegram com as escolhas que o filho pode vir a fazer, por outro, eles se conscientizam que o tempo passou, e que as responsabilidades que assumiram na vida rouba uma parcela significativa da sua liberdade de se reinventar.

 

 

Por isso, é importante que os pais reflitam sobre a adolescência do filho procurando localizar como ela toca a sua vida. Pois, só assim, eles vão conseguir ser para ele um ponto de apoio, para que ele se transforme em um adulto maduro, capaz de assumir o domínio da sua própria vida.

 

Parentalidade

SOMOS UMA SOCIEDADE DE FILHOS ÓRFÃOS DE PAIS VIVOS.

 

Vivemos na era das respostas imediatas e soluções mágicas para os impasses e dificuldades que são inerentes a vida. O que justifica a quantidade enorme de livros de auto ajuda disponíveis nas prateleiras das livrarias que abordam diferentes aspectos da vida.

 

 

No que se refere á criação e educação de filhos, encontramos também uma variedade de materiais sobre aspectos diversos da infância que funcionam como verdadeiros manuais de como criar filhos. Essas informações e orientações podem sim ajudar pais e mães a superar algumas dificuldades vivenciadas com o filho no cotidiano. No entanto, me pergunto por que os pais dessa geração recorrem com frequência a essas informações. Será que eles estão com dificuldade de exercer o seu papel?

 

Venho escutando no meu consultório das mulheres que são mães que elas se sentem cansadas, esgotadas e sem saber como agir com o filho. De fato, maternar uma criança requer disponibilidade, tempo e tranquilidade, requisitos cada vez mais escassos, já que hoje grande parte das mulheres que optaram por ser mãe, não restringiram suas escolhas à maternidade.

 

Diferente do passado, a mulher desse século não deseja ser apenas mãe, ela também busca outros caminhos para se realizar na vida. Com isso, ela acaba se dedicando a vários projetos e vivenciando uma rotina louca, na qual ela prioriza tantas coisas que cuidar do filho acaba se tornando mais uma das tarefas a ser cumprida em uma agenda lotada de compromissos.

 

 

E para dar conta de tudo isso, ela acaba terceirizando a maternidade além do que deveria, contratando uma legião de profissionais para acompanhar o filho em algumas tarefas diárias, como no retorno da escola, nos momentos das refeições, dos deveres de casa, das idas ao pediatra, no parquinho no final da tarde, nas festas de aniversário.

 

Tarefas que podem ser cumpridas por qualquer pessoa, seja ela uma babá, a avó, ou uma vizinha, mas que representam momentos preciosos que a mãe tem a oportunidade de construir com o filho um vínculo de afeto e confiança, de conhecê-lo intimamente, de responder as suas infinitas perguntas sobre várias coisas do mundo que despertaram a sua curiosidade, de perceber como ele compreende a realidade a sua volta, quais são seus medos, suas dificuldades, e, sobretudo, de educá-lo. Porque é no dia a dia que surgem as oportunidades para ensinar para a criança o que é certo, o respeito e cuidado pelo colega e pelas pessoas idosas, e outras orientações necessárias para que ela se torne um adulto saudável.

 

Vc leitor deve estar se perguntando onde entra o pai nessa história, afinal, o filho não é só da mãe e não é justo que toda a responsabilidade recaia sobre ela. Penso que a sua realidade não é muito diferente daquela vivenciada pela mulher, rotina pesada, excesso de trabalho, busca de sonhos e metas que requerem dele muita dedicação e energia.

 

Com isso, alguns pais também acabam exercendo a paternidade nas brechas de uma agenda lotada ou nos finais de semana, quando normalmente ele está exausto, precisando de paz e silêncio para recarregar as baterias, após uma semana exaustiva de trabalho. O que o leva a apelar para a TV e o Iped para poder desfrutar desse momento tão sonhado e merecido de descanso, enquanto o filho hipnotizado passa horas assistindo o Discovery kids ou vendo vídeos na internet, nem sempre apropriados para a sua idade.

 

Essa é uma triste realidade que estamos vivendo. Além de uma rotina exaustiva de trabalho que tira dos pais parte da energia e do tempo que eles deveriam dedicar aos seus filhos, ao transformar a televisão, o celular e o Iped em verdadeiras babás eletrônicas que trabalham sem descanso nos finais de semana, eles tornam os momentos de convivência com os filhos cada vez mais raros.

 

 

O resultado de tudo isso são crianças agitadas, irritadas, birrentas, que fazem de tudo para chamar a atenção dos pais, e pais exaustos que com frequência desabafam com os amigos: “Já não se fazem mais crianças como antigamente, as crianças de hoje são difíceis e exigentes”. Será que já não se fazem mais crianças como antigamente? Ou foram os pais dessa geração que mudaram?