MATERNIDADE REAL

 

A maternidade é um tema instigante que venho pesquisando com o intuito de compreender a complexidade e profundidade dessa experiência. Sou mãe e psicóloga clínica, apaixonada pela minha profissão e pelo universo feminino, acolho em meu consultório mulheres em busca de equilíbrio e apoio para lidar com os desafios e dilemas que a maternidade trouxe para a sua vida.

 

 

Escutando essas mulheres observei que as dificuldades vivenciadas por elas no cotidiano só são compartilhados com um terapeuta. É raro ouvir uma mulher admitir em público que a maternidade não é só flores e que o nascimento do filho provocou mudanças irreversíveis na sua vida. Mesmo sofrendo, elas se recusam a compartilhar seus medos e inseguranças, sustentando com essa atitude o mito do instinto materno disseminado em nossa sociedade, nos últimos séculos, que corresponde á crença de que toda mulher nasceu para ser mãe, vai naturalmente desejar ter filhos, amá-los incondicionalmente e sentir-se plena e realizada com a maternidade.

 

Embora algumas mudanças significativas tenham ocorrido na sociedade nas últimas décadas, modificando de forma radical o lugar e o papel social da mulher, ela continua sendo a principal responsável pelo filho.

 

 

Para Badinter, autora francesa que realizou uma pesquisa sobre o instinto materno, a sociedade ainda espera que a mulher ame seu filho incondicionalmente e encontre na maternidade a sua maior fonte de realização e satisfação. O que nem sempre acontece.

 

O processo de tornar-se mãe para um filho não é decorrente de um dom natural, mas de alguns aspectos que vão influenciar de forma significativa o modo como a mulher se apropria do seu papel e vivência a maternidade. Dentre eles, destaco o desejo, a própria experiência da mulher como filha e os discursos sociais que definem em uma determinada cultura e época o que é ser mãe.

 

Por isso, ao contrário do que a sociedade espera, o amor entre pais e filhos não está garantido a priori e nem toda mulher consegue se apropriar do seu papel com tranquilidade, vivenciando a maternidade de forma gratificante. Para algumas mulheres, a maternidade poder ser uma experiência difícil e contraditória.

 

 

O encontro com um bebê real de carne e osso que demanda atenção exclusiva pode despertar na mulher conflitos e sentimentos contraditórios que surgem porque a maternidade como qualquer relação humana é ambígua. Sentimentos que ela raramente consegue admitir e que desperta nela um profundo sentimento de culpa comprometendo a construção de um vínculo satisfatório com seu bebê que necessita dessa relação para se desenvolver.

 

 

Reconhecer os afetos e emoções vivenciados com a maternidade e se dispor a falar das dificuldades que a chegada de um filho trouxe para a sua vida pode ser libertador para algumas mulheres, que ao falar da sua experiência como mãe conseguem encontrar uma forma de dar tratamento a esses impasses vivenciando, assim, a maternidade de forma mais prazerosa e satisfatória.

Texto originalmente publicado na Revista Canguru (Edição Maio de 2017).