NOTAS SOBRE A CULPA MATERNA

 

Desde que iniciei minhas pesquisas sobre a maternidade, comecei a me perguntar por que a culpa é um sentimento presente no discurso de praticamente todas as mulheres que atendi na minha clínica que buscavam análise com o intuito de trabalhar as suas dificuldades com a maternidade.

 

 

Lendo a pesquisa realizada pela socióloga Orna Donath que entrevistou mulheres que se arrependeram da escolha pela maternidade, comecei a pensar que para além das vivências pessoais e fatores inconscientes que atravessam a experiência de cada mulher com a maternidade, a culpa também pode ser fruto de questões culturais.

 

Apesar das mudanças que ocorreram nas últimas décadas na forma de falar sobre a maternidade e os sentimentos que ela desperta, possibilitando que o mito da mãe ideal seja questionado, na medida em que as mulheres começam a falar publicamente dos seus conflitos e dilemas com a maternidade, esse mito ainda continua vivo e pulsante atravessando nossa experiência com a maternidade.

 

 

No seu livro, Orna Donath comenta que muitas mulheres entrevistadas por ela afirmam ter se arrependido da maternidade por não corresponderem a um ideal social de como uma mãe deve ser, sentindo-se, por isso, inadequada e fracassada enquanto mãe.

 

Em uma das entrevistas relatadas pela autora, a mãe entrevistada afirma que se sente profundamente culpada por não ter encontrado na maternidade, mas no seu trabalho e em outros projetos sociais, sua maior fonte de realização pessoal. Por isso, se arrependeu da escolha pela maternidade.

 

 

Entrevistas como a de P. me levaram a pensar que nós mulheres desse século conquistamos sim uma autonomia e liberdade em relação a vários aspectos da nossa vida. Não restringimos mais nossa vida ao lar, aos filhos e ao casamento, almejamos uma carreira profissional, votamos, participamos da vida pública, mas no que diz respeito à maternidade, acredito que ainda há muita opressão.

 

 

Embora a sociedade, pautada em uma ideologia capitalista, veicule a ideia de que somos livres para escolher se queremos ou não ser mãe e construir nossa identidade como mãe a nossa maneira, ela ainda espera e cobra de nós determinadas condutas e sentimentos.

 

As mães ainda representam seres sagrados, que amam seus filhos incondicionalmente, responsáveis pelo sucesso ou fracasso do filho, cujo futuro depende da sua conduta e da forma como ela realizou seu papel como mãe.  O que mostra que apesar de todas as mudanças, a cultura ainda não conseguiu reconhecer que a maternidade é apenas uma experiência humana contraditória e conflituosa como qualquer outra, e nem considerar que a mulher é um ser separado do filho, com existência, desejos e necessidades próprias.

 

 

Por isso, mesmo desfrutando da liberdade de fazer outras escolhas para além da maternidade, quando se tornam mãe, a sociedade ainda espera que as mulheres abdiquem de seus sonhos e projetos pessoais, repensem suas escolhas em prol do filho e encarne a mãe ideal, 100% dedicada e atenta as suas necessidades, mesmo quando ela concilia a maternidade com uma carga horária pesada de trabalho e independente das condições em que ela cria seu filho.

 

Por causa disso, é que acredito que parte da culpa que as mulheres sentem quando se tornam mães, sentimento que atravessa cotidianamente a sua relação com seu rebento, é decorrente da presença viva do mito social da mãe ideal, que em minha opinião se tornou a maior arma de opressão das mulheres nas últimas décadas.