REFLEXÕES SOBRE A PATOLOGIZAÇÃO E MEDICALIZAÇÃO DA INFÂNCIA

Esse post que tem como objetivo discutir a patologização e medicalização em grande escala das crianças nasce do meu desejo como psicóloga, psicanalista e mãe de problematizar essa questão convidando pais, educadores e pessoas interessadas na infância e refletir sobre essa questão.

 

Está cada vez mais comum encontrar crianças que portam algum tipo de transtorno, sendo os mais comuns o TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade), o Transtorno Opositor Desafiador, que acomete crianças com dificuldade intensa em conviver socialmente com sua família ou com figuras de autoridade, e o Autismo. Segundo reportagem da Revista Veja de julho de 2017, embora a causa do autismo ainda seja enigmática, estima-se que a cada 68 crianças uma é afetada pelo transtorno, cuja característica principal é a dificuldade de socialização e comunicação.

 

 

De fato, os avanços científicos vêm facilitando o diagnóstico de transtornos mentais como o autismo e o tratamento do mesmo. No entanto, me pergunto se estes números são reais ou se está havendo uma banalização desses diagnósticos.

 

 

Desde o advento do DSM-V (Manual da Psiquiatria), comportamentos típicos da infância considerados normais, como a agitação, a distração e a timidez foram transformados em sintoma de algum transtorno, o que vem acarretando o encaminhamento maciço de crianças para os neurologistas e psiquiatras infantis.

 

Esses encaminhamentos acontecem principalmente por parte dos educadores das escolas que, ao detectar na criança um comportamento que causa um transtorno no ambiente escolar ou que se opõe ao que se espera dela em uma determinada fase do desenvolvimento, orienta os pais a buscar um especialista com o intuito de suprir tal comportamento. O que, com raras exceções, resulta na patologização desse comportamento e medicalização da criança.

 

 

Outro fator que também contribui para a patologização e medicalização das crianças em grande escala é o fato de vivermos em uma sociedade que vem desrespeitando a infância, as particularidades e o tempo de cada criança. Existe hoje por parte dos pais uma preocupação exacerbada com o futuro da criança. Por isso, está cada vez mais comum encontrar crianças com agendas lotadas e com pouco tempo para brincar e desfrutar de uma das fases mais importantes e significativas da vida, a infância.

 

Exigimos delas foco, obediência, disciplina, atenção e, sobretudo, produtividade. Com isso, nos tornamos intolerantes. Diante de um comportamento que não atenda a esses requisitos, buscamos extingui-lo, sem se perguntar sobre a causa deste comportamento.

 

Como psicóloga e psicanalista com experiência na clínica com criança posso afirmar que grande parte dos comportamentos e sintomas apresentados por elas estão relacionados  a algum conflito ou dificuldade vivenciado no âmbito familiar, escolar ou em outros contextos. Uma criança agitada, por exemplo, nem sempre é uma criança hiperativa. Essa agitação pode ser a forma que ela encontrou de comunicar para as pessoas com as quais ela convive que ela está sofrendo, ou de lidar com algo que lhe afeta, ainda que ela não tenha consciência disso.

 

São estes conflitos que muitas vezes não são levados em consideração ou escutados não só pela dificuldade dos pais de lidar com os impasses vivenciados pela criança, uma vez que não é simples deparar-se com a angústia de um filho, mas também porque vivemos hoje em uma sociedade em que os adultos têm pouca tolerância para o sofrimento.

 

Diante da dor, da dúvida, das incertezas e contradições que são inerentes à condição humana, afinal, ninguém passa ileso pela vida, eles tendem a buscar meios de se livrar desses sentimentos, anestesiando a dor. Assim, ao invés de buscar uma explicação para o seu sofrimento, medicam a dor e colocam o problema debaixo do tapete, adiando seu enfrentamento.

 

Por isso, me pergunto se estamos fazendo o mesmo com nossas crianças quando patologizamos comportamentos e sintomas que revelam que algo não vai bem com ela, silenciando seu sofrimento com medicamentos, deixando, assim, de escutá-las.  Afinal, as crianças não são seres destituídos de conflitos e assim como nós, adultos, elas também sofrem e tem o que dizer do seu sofrimento!