SOMOS UMA SOCIEDADE DE FILHOS ÓRFÃOS DE PAIS VIVOS.

 

Vivemos na era das respostas imediatas e soluções mágicas para os impasses e dificuldades que são inerentes a vida. O que justifica a quantidade enorme de livros de auto ajuda disponíveis nas prateleiras das livrarias que abordam diferentes aspectos da vida.

 

 

No que se refere á criação e educação de filhos, encontramos também uma variedade de materiais sobre aspectos diversos da infância que funcionam como verdadeiros manuais de como criar filhos. Essas informações e orientações podem sim ajudar pais e mães a superar algumas dificuldades vivenciadas com o filho no cotidiano. No entanto, me pergunto por que os pais dessa geração recorrem com frequência a essas informações. Será que eles estão com dificuldade de exercer o seu papel?

 

Venho escutando no meu consultório das mulheres que são mães que elas se sentem cansadas, esgotadas e sem saber como agir com o filho. De fato, maternar uma criança requer disponibilidade, tempo e tranquilidade, requisitos cada vez mais escassos, já que hoje grande parte das mulheres que optaram por ser mãe, não restringiram suas escolhas à maternidade.

 

Diferente do passado, a mulher desse século não deseja ser apenas mãe, ela também busca outros caminhos para se realizar na vida. Com isso, ela acaba se dedicando a vários projetos e vivenciando uma rotina louca, na qual ela prioriza tantas coisas que cuidar do filho acaba se tornando mais uma das tarefas a ser cumprida em uma agenda lotada de compromissos.

 

 

E para dar conta de tudo isso, ela acaba terceirizando a maternidade além do que deveria, contratando uma legião de profissionais para acompanhar o filho em algumas tarefas diárias, como no retorno da escola, nos momentos das refeições, dos deveres de casa, das idas ao pediatra, no parquinho no final da tarde, nas festas de aniversário.

 

Tarefas que podem ser cumpridas por qualquer pessoa, seja ela uma babá, a avó, ou uma vizinha, mas que representam momentos preciosos que a mãe tem a oportunidade de construir com o filho um vínculo de afeto e confiança, de conhecê-lo intimamente, de responder as suas infinitas perguntas sobre várias coisas do mundo que despertaram a sua curiosidade, de perceber como ele compreende a realidade a sua volta, quais são seus medos, suas dificuldades, e, sobretudo, de educá-lo. Porque é no dia a dia que surgem as oportunidades para ensinar para a criança o que é certo, o respeito e cuidado pelo colega e pelas pessoas idosas, e outras orientações necessárias para que ela se torne um adulto saudável.

 

Vc leitor deve estar se perguntando onde entra o pai nessa história, afinal, o filho não é só da mãe e não é justo que toda a responsabilidade recaia sobre ela. Penso que a sua realidade não é muito diferente daquela vivenciada pela mulher, rotina pesada, excesso de trabalho, busca de sonhos e metas que requerem dele muita dedicação e energia.

 

Com isso, alguns pais também acabam exercendo a paternidade nas brechas de uma agenda lotada ou nos finais de semana, quando normalmente ele está exausto, precisando de paz e silêncio para recarregar as baterias, após uma semana exaustiva de trabalho. O que o leva a apelar para a TV e o Iped para poder desfrutar desse momento tão sonhado e merecido de descanso, enquanto o filho hipnotizado passa horas assistindo o Discovery kids ou vendo vídeos na internet, nem sempre apropriados para a sua idade.

 

Essa é uma triste realidade que estamos vivendo. Além de uma rotina exaustiva de trabalho que tira dos pais parte da energia e do tempo que eles deveriam dedicar aos seus filhos, ao transformar a televisão, o celular e o Iped em verdadeiras babás eletrônicas que trabalham sem descanso nos finais de semana, eles tornam os momentos de convivência com os filhos cada vez mais raros.

 

 

O resultado de tudo isso são crianças agitadas, irritadas, birrentas, que fazem de tudo para chamar a atenção dos pais, e pais exaustos que com frequência desabafam com os amigos: “Já não se fazem mais crianças como antigamente, as crianças de hoje são difíceis e exigentes”. Será que já não se fazem mais crianças como antigamente? Ou foram os pais dessa geração que mudaram?